Uma das minhas expressões que recorto em jornal preferidas é, sem dúvidas, "no afã". Primeiro, porque ao ser introduzido pela preposição "em + o", afã recebe o poder de ser um lugar. Mas não um lugar qualquer. Um lugar bem mais palpável, como "sofá", "bote", "caiaque", etc. E isto que me faz gostar tanto dela. Um toque sinestésico que me faz criar um objeto para cada "afã" que vejo em artigos e outras publicações.
Tais textos, se aproveitam do uso desta expressão, pela imponência que ela confere ao objeto sobreposto ao "afã", sobretudo ainda pela certeza de que estão falando com muito mais posse da veracidade do fato e da acusação (raramente vejo essa palavra sem ser empregada em uma acusação, ou crítica recheada de ironia). Vejamos neste simples exemplo:
"Eles são acusados de implementarem um sistema fictício de concessão de diárias na Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) no afã de enriquecer-se ilicitamente." fonte: http://www.tjrn.jus.br
"No afã de mostrar que tem apoio, Lupi constrange deputado" fonte: http://veja.abril.com.br/
Juro que foram os primeiros exemplos que o google me forneceu depois de ter escrito que "no afã" era sempre associado à acusações. A palavra "acusados" da primeira frase denota muito bem o que quis dizer. E por que tamanha injustiça com uma expressão tão bela e cheia de significados extra-ilicitatórios? Veja bem, esses "recortes jornalísticos" que eu faço são frutos de constatações recorrentes de ferramentas utilizadas em matérias de revistas ou jornais que somam algo -para mim- do além-conteúdo. Como, por exemplo, quando um jornalista destrincha uma mísera palavra-chave de um texto em trocentos sinônimos históricos, poéticos, obscuros e anônimos.
Nesses dias, conversando com meu amigo Pedro, no afã de sua graduação em jornalismo, o perguntei que outra palavra (ou expressão) ele descreveria "internet". Essa rede mundial de computadores. É complicado não soar piegas. Admiro o tempo gasto pelos escritores a fim de não repetir palavras. Assim como admiro os que as sabem usar inconsequentemente.
Concluo minha reflexão com um desejo de ver "no afã" sendo empregado com mais leveza. Sem imponência, com pouca objetividade acusatória, e com a simplicidade informal de um certo dicionário informal desta grande rede que nos liga. Um tal de José Batista do Nascimento, no dia 11 de abril de 2008, foi exemplificar no site de vernáculos informais e escreveu:
"Laura, no afã de navegar, entrou no iate do tio, sem a bóia salva-vidas."
Laura, curiosamente, é minha amiga e namorada de Pedro.