"Surto de pieguismo na cidade mata três em um bar da esquina"
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Nunca as máquinas de videokês estiveram tão em alta. O brega, as flores, as camisas de botão... A bohemia está preocupada. A nata da cultura da cidade, chora em todos os becos, sem razão alguma. "Os brutos também amam!" gritam o tempo todo os brutos. Amor, amor, amor... Os cantores cada vez mais compondo sobre esse sentimento tão piégas do ser. A mulher esquece de fazer o café às 7:00. O homem acorda cantando. É, de fato, uma epidemia.
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"Você errou. Quem mandou você errar?
Quem mandou?"
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A ilusão do sentimento manifesta-se na alma da minha cidade. Estão todos apelando a favor de sentirem-se felizes, tristes, amando, traídos... Não importa o sentimento, eles querem sentir. O homem natural daqui perdeu a eloquência. E toda roda de samba, virou manifesto de sentimento. Embriagados em um mesmo bar na esquina da Rua da Saudade, 3 senhores de meia-idade, ao serem perguntados pelo dono do estabelecimento sobre o que queriam, responderam, respectivamente "orquídeas", "charuto", "chega de saudade - João Gilberto". E a partir deste pedido, iniciaram um diálogo sobre o quão impressionante eram as coisas bestas da vida. E o quão eloquentes pareciam estar sobre suas cadeiras. Foi pedido um discurso.
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"Meus bons e velhos amantes, como fico feliz sabendo que neste recinto, compartilho da mesma bebida de ilustres figuras como as vossas. Divido a mesma lua para me admirar, e reclamo do mesmo sol, mas com uma vontade de acariciá-lo tão grande, que esqueço de minhas amadas mulheres. Não aguento mais sentir tanto como estou sentindo. E por isso, à esta faca, deposito minha confiança de um mundo menos expressivo. E quem quiser do meu sentimento provar, que o faça depois de mim"
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O vinil já estava tocando na faixa um do lado B, quando os três senhores piégas utilizaram da mesma faca para suicidarem-se. As orquídeas cobriram os corpos, enquanto um outro ser, menos sentimental, fumava o resto do charuto do então finado.
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"Que no peito dos desafinados,
no fundo do peito, bate calado.
No peito dos desafinados,
Também bate um coração"