30 de janeiro de 2013

crise existencial


           Começou quando fui ao mercado e comprei shampoo para cabelos cacheados. No auge de minha luta travada anti-caspas, acho que isto foi resultado de uma defesa de meu organismo para conter os gastos excessivos com esses falsos produtos que tornam-se exorbitantes na contagem regressiva para o fim do meu dinheiro em cada mês. Aliás, acho não. Achava, dado os outros acontecimentos que passei nesses dias.
             Em casa, fiquei 5 horas inerte ao dia. Acho que se o "dia" fosse um adolescente, ele provavelmente faria bullyng comigo por não o aproveitar bem. E eu seria reconhecido por meus semelhantes por isso. Em outros dias, haveria mais preocupação, porém neste não. Eu vivi intensamente minha vontade de morrer. E saudava comigo mesmo este acontecimento. Brindei ao fim da tarde (só) com uma bela xícara de café que me deu calor e uma pequena vontade de chorar. Não resisti. E mais uma vez, algo que nunca me fora acometido. 
            No dia seguinte, ao sair pelo portão de casa, já achava uma verdadeira palhaçada o esforço do vizinho de parecer simpático. E eu até gosto dele, mas naquele momento, suas atitudes me pareceram um tanto enigmáticas, e eu passei a tê-lo como forte candidato a primeiro lugar de lista de pessoas que eu não sei nada sobre. Vi no vidro do carro que o shampoo dera certo. Um tolo de não perceber o que estava realmente acontecendo. Porém, estava o cabelo mais enrolado, quebrando a barreira do incrivelmente indefinido que ele vinha seguindo. Não podia me dar o luxo de escolher o shampoo para um tipo de cabelo, se o único tipo que tenho que exigir é o "sem caspa". Liso, oleoso, crespo, macio, nunca soube definir essas coisas muito bem...
               Duas aftas novas. Era tudo que precisava mesmo! Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que encarar um de meus maiores inimigos: albocresil. Um cauterizador de estas aftas, que podia muito bem fazer o papel de Arnold Schwarzenegger em "O Exterminador do Futuro". Esse líquido que, provavelmente era o sangue do demônio, ou alguma outra coisa qualquer que eu tinha certeza que se usa no inferno, me amedrontou por anos e anos. E eu estava prestes a usá-lo novamente. E usei. E poderia escrever um roteiro de peça, um livro e mais uma trilogia como "O Senhor do Anéis" sobre como achei a melhor sensação. Foi como ser agarrado pela mãe logo ao nascer. E eu não compreendia ainda o significado daquilo tudo.
                 Não tinha dado nem 21 horas. E eu já havia cochilado algumas vezes no sofá. Em uma dessas alternadas em acordar e cochilar me dei conta de o que havia acontecido. Comecei a assistir uma de minhas séries preferidas:  Sherlock. O episódio, eu já havia visto 5 vezes, e todas as vezes parecia que era a primeira. Apenas com um breve olhar cada vez mais crítico e atento às maneiras que o Senhor Holmes se saía das armadilhas que  Jim Moriarty o propunha. Com 43 minutos de episódio, em um dos seis clímax que me fazem girar a cabeça e o intestino, desligo a televisão. Não conseguia continuar. Não conseguia ao menos tentar. Simplesmente desliguei para deixar aquilo digerir melhor na minha cabeça. E algo se digeriu a mais.
                   Sob os modos de raciocinar de Holmes, juntei tomé com bebé. Havia me tornado outra pessoa.

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