Muitos foram os dias divertidos no centro da cidade. Dias de ganhar dinheiro aos 12. Dias de vender livros de almanaques que ninguém lia e que não se podia comê-los. Dado que, geralmente, os trocávamos por comida, e as informações de mundo que obtive andando pela avenida rio branco, correndo atrás de ônibus, e prestando atenção na conversa dos outros, me fizeram crescer mais que informações sobre a demografia da Patagônia. Porém, um fato curioso ilustrou bem minhas idas à cidade antiga.
Catarina. Este é o nome da minha Sancho Pança. Não lembro sequer o por quê de estarmos lá fazendo aquilo, mas lembro-me de ela ter seus 15 anos (o que me levava a ter 9 anos), e lembro-me bem que estávamos a procura de um emprego para ela. Não precisava desse emprego, mas procurei nos classificados da Tribuna do Norte e lembro que encontrei uma vaga de atendente de locadora de fita VHS. Naquela época, as locadoras ainda viviam sua fase áurea. E eu comemorava esse momento com minha irmã.
Chegamos ao referido local. Um muquifo. Um quartinho com 3,4 filmes realmente bons que não sei como se sustentava. Claro que ela não ia trabalhar naquele local. Ela realmente não precisava daquilo.
Como era de praxe, um lanche. Um lanche próximo à locadora. Um lanche de descoberta! Não sei como aquilo nos chamou atenção, talvez Catarina, que sempre fora muito bem informada em suas revistas, talvez de dietas, leu a respeito de uma coisa (uma fruta, mais precisamente) chamada açaí. Isso mesmo. Açaí. Provavelmente o dono era de Belém do Pará e havia acabado de chegar na região. Com um cardápio discreto, porém de vanguarda, tínhamos a opção de sucos de cupuaçu e açaí. Mas não deu outra. Assim como a maioria de hoje em dia, escolhemos o de açaí. E não era o açaí convencional que vemos hoje,visto que esse açaí não existia até então. Era um copo de um suco muito escuro e roxo que dava vontade de se deliciar, porém havia receio. Não sabia do que se tratava esse tal de suco de açaí...
E assim como os gerentes da Xerox, que indubitavelmente disseram "não" ao projeto apresentado a eles, de um computador pessoal pelo antigo sócio da Apple, Steve Wozniak, eu disse "não". Foi o mesmo "não". O "não" de quem não tinha a visão empreendedora. De quem não tem a visão empreendedora. "Como uma coisa pode ser tão ruim?", "Tem gosto de terra!!", "Pelo amor de Deus, Catarina, você não sabe escolher suco!", "Deveríamos ter escolhido cupuaçú...". Essas reclamações soaram nos anos seguintes ao fato, até uma certa lanchonete conhecida até hoje por "Açaí do Joca Jr." foi criada em Natal. Eu disse, rispidamente: "pft! Não dura uma semana... Com um negócio ruim desses!". Virou febre. Virou mania de todos, inclusive minha, que me derreti aos sabores do norte. Talvez meu paladar tivesse fraco para aquilo, ou talvez o cara que nos fez o suco não soubesse fazer. Não procurei explicações. Só sei que cada vez que me delicio com o meu açaí de 500 mL, com leite ninho, farinha láctea, ovo maltine, leite condensado, granola, y muchas cositas más, eu penso: eu que descobri isto aqui. Eu não preciso dizer a ninguém. Mas eu sei. Catarina sabe. O cara que nos fez o suco e provavelmente faliu porque não sabia fazer uma coisa gostosa sabe. Eu que descobri o açaí em Natal.
E minha irmã passou muito tempo para procurar um emprego de novo. Acho que meus pais não souberam da nossa aventura. Procurar emprego? Acho que eles ficariam deveras chateado com essa atitude. Uma atitude de liberdade, uma expressão de duas crianças de vivenciar o mundo adulto, uma fuga, uma necessidade. Talvez ela soubesse desde sempre que não iria aceitar e me fez sentir importante por procurar um emprego no jornal e ela aceitar. Ela é bem dessas.
Acho que ela precisava daquilo.
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